terça-feira, 31 de julho de 2018

Averso

Gostaria agora de me pôr ao contrário, escancarar meus órgãos e proteger minha epiderme. Caminhar transvestido assim por alguma rua composta de gente a horrorizar cada passo. Nada iria evocar tanto pudor quanto minha face limpa refletida no espelho, espremida pelas minhas mãos que firmemente sufocam cada linha da testa. Compassando os joelhos numa tentativa involuntária de se recompor, perfaço memórias inconvenientemente saudosas. Cada quadro de imagem que se forma reconstroem uma realidade que nunca existiu. O padrão formado pelo batucar dos joelhos insinua o compasso desuniforme do coração que luta contra cada veia que o amarra para não saltar à boca. Ferve a saliva, garganta seca. Vou vibrar, silencioso.

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