Notas ao nada
terça-feira, 31 de julho de 2018
Averso
Gostaria agora de me pôr ao contrário, escancarar meus órgãos e proteger minha epiderme. Caminhar transvestido assim por alguma rua composta de gente a horrorizar cada passo. Nada iria evocar tanto pudor quanto minha face limpa refletida no espelho, espremida pelas minhas mãos que firmemente sufocam cada linha da testa. Compassando os joelhos numa tentativa involuntária de se recompor, perfaço memórias inconvenientemente saudosas. Cada quadro de imagem que se forma reconstroem uma realidade que nunca existiu. O padrão formado pelo batucar dos joelhos insinua o compasso desuniforme do coração que luta contra cada veia que o amarra para não saltar à boca. Ferve a saliva, garganta seca. Vou vibrar, silencioso.
Ritual Onírico
Há rituais que são fincados na (in)consciência como mecanismo de defesa contra a generosa repetição de sensações incômodas que nos insere num estado insuportável de estar. Foi na execução religiosa de uma destas rotinas que tudo aconteceu. Como que automático, tranco a porta e me exponho às paredes desenhadas com o que se quer que queira; movo meu corpo para frente do vidro que me reflete pendurado por um pescoço curto e coloco um resto de incenso na janela acima de tal reflexo, numa brecha notadamente acomodativa. O fósforo é riscado em seguida e me apresso bloqueando a passagem intrometida de ar que pretendia apagá-lo. É de bom tom dizer que esqueci-me de um detalhe. Um pouco antes de acender tal fumaçador, notei um movimento brusco de algo que me esgueirava. Girando rapidamente o campo de visão vejo aqueles chifres brilhantes e tive a ilusão de notar olhos que me introduziram num ambiente de tensão. Não gostaria de lembrar daquele olhar novamente para descrevê-lo. Evasivamente, tento uma comunicação mental despretensiosa. Ela se move horizontalmente da parede até a porta, da porta até outra parede. Esqueço-a. Preciso continuar meu hábito. Derrubo tragicamente o fósforo no chão. Me percebo desconfortável com aquela presença estática, após tanto rebuliço. No entanto, após ter percebido que minha tentativa de telepatia anterior não havia sido efetiva me dispus a pensar um modo de resolver tudo aquilo. Enquanto isso, para fingir despreocupação, atuava soprando aquela soma. Pulmões cheios de fumaça. Níveis enteogênicos acima da média. O plano se desdobrava em meu leito cerebral de modo que em três tragos tudo já estava muito bem resolvido. Termino de somar, percebo então que aquele inconveniente ser havia sumido. Nos cumes do desespero para execução de minha ideia, cutuco todo tipo de objeto largado no ambiente. Ao chutar com meus dedos pretos os calçados, a besta se emana em velocidade para um recanto de parede. Cessou seus movimentos, concordei em acreditar que ele não estava ali. Abri a porta, peguei o recipiente x e em menos de um segundo estico em meio ao olhos agora esbugalhados daquele monstrengo meus braços acionando o dispositivo da substância impiedosa. O som de um agonizar imaginário me veio ao intelecto preenchendo meu corpo de vergonhoso prazer. Era questão de minutos. Enquanto o tipo se contorcia por todos os lados do meu lado e eu absorvia em mim alguma medida de seu afligir, me dirigi até o celular e deixei seguir numa boa música. Me encarei no espelho, o rosto lá sorriu. Me reconheço mas não sei quem é.
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